segunda-feira, 25 de abril de 2011

Avenida Macuco, ano 1946

 Meu pai em convalescença do tifo,adquirido num mergulho no Rio Pinheiros lá para os lados da Chácara Santo Antonio,onde havia pontos de areia,cuida para que eu não despenque do cadeirão enquanto minha mãe faz a foto. Do outro lado da rua,duas casas típicas da época,rentes à rua.Uma delas era a barbearia onde pela primeira vez meus cabelos foram cortados, isso,muito tempo depois, aí nem os tinha. Daquela feita,ao ver o barbeiro com a tesoura em punho, tapei as orelhas com as mãos e pus-mea gritar com medo que ele cortasse os meus brincos.
 Escrevendo isso agora tomo consciência de que amor aos brincos é uma característica que me acompanha. Não uso maquiagem,não pinto os cabelos, sou bem relaxada quando se trata de vaidade,mas nunca saio de casa sem brincos, é como se faltasse uma peça de roupa. Foi nessa rua em Moema, que até meus 4 anos e meio, morei numa casa de fundos.
Nossos senhorios eram os irmãos Crêem já idosos: João funcionário administrativo da Light, Leonor  organista da Igreja Metodista, Amélia dona de casa e Mario, professor primário aposentado e pastor da igreja Metodista, que eu chamava de avô.Vivia comigo nos ombros,contando histórias e ensinando-me hinos evangélicos.
 Todos os dias colocava-me sobre o muro que nos separava da chácara de verduras e cabras e durante horas conversava com o proprietário, seu José, um português de meia idade, muito simpático,que assim que me via exclamava:"Bom dia rica menina,como estás?".Eu gostava do jeito dele falar, que logo só falava o português de Portugal, para desgosto da minha mãe.
Aos domingos ia com meu pai à confeitaria alemã de seu Estegman,na Avenida Jandira,ao lado da casa Eurico de calçados.Comia uma bomba de chocolate e toda lambuzada ia ver o tanque de carpas vermelhas da indústria Aço Brasil, na Macuco esquina co m a linha do bonde,depois visitava a loja do Ernesto Cinquetti, parente distante da  Gigliola  e candidato a vereador. Cinquetti,muito bom, ajudava a todos. Foi ele que pagou a lotação para  meu pai, desempregado, trazer da Maternidade São Paulo,na Frei Caneca, minha mãe e eu, naquele difícil ano de 1945. Outra parada era na farmácia so seu Domiciano, um farmacêutico prático, curandeiro de todos nós. Foi ele que furou as orelhas e colocou meu primeiro par de brincos- isso não posso esquecer.
No quintal de nossa casa, moravam também dona Etelvina e seu filho Titico, que nas horas vagas tocava bandolim para mim. Bem próximo,na Rua Arapanés,moravam  meus avós, meu tio, a dona Tegna, uma judia que jogava no bicho todos os dias e tricotava luvas de linha finíssima, enquanto conversava com vovó. Havia também a dona Maria, enfermeira e massagista cujo filho suicidou-se e seu Dário, dono do armazém, que vendia fiado,"na caderneta". A Aço Brasil consumiu-se em um incêndio,acho que em 1948. A Casa Eurico ainda está lá, no mesmo lugar,vendendo calçado de tamanhos especiais, do Cinquetti, fui professora de uma sobrinha neta em 1988 e exceto meu pai, todos os outros já faleceram. Aquele pedacinho da cidade com seus moradodres amigos e solidários era o mundo que eu conhecia a parte da história de São Paulo que eu vivi que posso e devo compartilhar, sem saudosismo!

escrito por: Lidia Walder

Ana Maria  a avó de Lidia  morou na Macuco número 26 em 1929 e  a casa onde a Lidia morou hoje é o Hortifruti Oba.

2 comentários:

  1. lendo sua história fiquei sabendo de coisas que nem podia imaginar, e com que amor voc~e fala dos vizinhos,da familia.Escreve mais.

    Maria do Socorro Barcel

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  2. Lidia sua historia e muito linda.Imagine e que senti pois moro na avenida Macuco hoje repleta de predios e de transito nem falar.Os vizinhos ja nao sao como antes e cada um pra si e si mesmo.Agora quando for ao Oba vou pensar em voce. na chacara e na vidinha mais serena.Abraços

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